A Educação a Distância no Brasil

A Educação a Distância no Brasil
PEDAGOGIA
A Educação a Distância brasileira é uma novidade que causa dúvidas quanto a sua eficiência, conforme nos alerta Sartori (2002), ao afirmar que desde a fase de implantação até o momento, algumas iniciativas de Educação a Distância tiveram sucesso e outras não. Embora não haja, ainda, uma tradição dessa modalidade educativa, ela já se fez presente no processo educacional brasileiro, em instituições públicas e privadas.

No Brasil, o início da Educação a Distância não está associado ao material impresso, e sim ao rádio. Sartori (2002) aponta a fundação da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, em 1923, por Roquete Pinto, como o marco inicial da Educação a Distância que tinha como objetivo utilizar o rádio como forma de ampliação do acesso à educação, ou “transmitindo programas de literatura, radiotelegrafia e telefonia, de línguas, de literatura infantil e outros de interesse comunitário” (ALVES, 1994, p. 25). A emissora foi doada ao Ministério da Educação e Saúde em 1936, e no ano seguinte foi criado o Serviço de Radiodifusão Educativa do Ministério da Educação (ALVES, 1994).

Para Volpato (2005) a Educação a Distância no Brasil surgiu por volta do ano de 1936, com a criação do Instituto Rádio Monitor, seguida das experiências do Instituto Universal Brasileiro, a partir de 1941. Destaca ainda que, na década de 50, outras instituições motivadas pela necessidade de democratizar o saber e tomando como realidade às dimensões continentais brasileiras, passou a fazer uso do ensino a distância via correspondência.

Para Alves (1994, p. 27):

Inexistem registros precisos acerca da criação da Educação a Distância no Brasil. Tem-se como marco histórico a implantação das “Escolas Internacionais” em 1904, representando organizações norte-americanas. Entretanto, o Jornal do Brasil, que iniciou suas atividades em 1891, registra na primeira edição da seção de classificados, anúncio oferecendo profissionalização por correspondência (datilógrafo), o que faz com que se afirme que já se buscavam alternativas para a melhoria da educação brasileira, e coloca dúvidas sobre o verdadeiro momento inicial da Educação a Distância.

Alves (1994, p. 29) ressalta que a crise na educação nacional já era notada na época, buscando-se desde então opções para a mudança do status quo. Transcreveu a citação contida no relatório de 1906, do Dr. Joaquim José Seabra, Ministro da Justiça e Negócios Interiores (que abrangia a Educação), ao Presidente da República. Textualmente, assim manifestava o titular da pasta: “O ensino chegou (no Brasil) a um estado de anarquia e descrédito que, ou faz-se a sua reforma radical, ou preferível será aboli-lo de vez”.

A educação a distância começou, portanto, num momento bastante conturbado da educação brasileira, tendo sua instituição em 1936, com a criação do Instituto Rádio Técnico Monitor, com programas dirigidos ao ramo da eletrônica (RODRIGUES, 1998).

Em 1939, a Marinha e o Exército brasileiros utilizavam a Educação a Distância para preparar e admitir oficiais na Escola de Comando do Estado Maior, utilizando basicamente material impresso, via correspondência (SARTORI, 2002).

Em 1941, foi criado o Instituto Universal Brasileiro dedicado à formação profissional de nível elementar e médio utilizando material impresso – instituído como entidade livre, com sede em São Paulo e filiais no Rio de Janeiro (SARTORI, 2002).

Em 1943, Alves (1994) destaca que a Igreja Adventista lançou, no Brasil, programas radiofônicos por meio da Escola Rádio-Postal de “A Voz da Profecia”, com a finalidade de oferecer aos ouvintes cursos bíblicos por correspondência.

Em 1946, tem início as atividades do SENAC - Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial - que desenvolveu no Rio de Janeiro e em São Paulo, a Universidade do Ar, que em 1950 já atingia 318 localidades e 80 alunos; em 1973, iniciou os cursos por correspondência, seguindo o modelo da Universidade de Wisconsin - USA (ALVES, 1994).

Rodrigues (1998) aponta a Diocese de Natal, no Rio Grande do Norte como criadora das escolas radiofônicas que deram origem ao Movimento de Educação de Base – MEB, em 1959, e coloca entre as experiências de destaque em Educação a Distância não formal no Brasil.

Rodrigues (1998) cita Nunes (1992) quando o mesmo diz que a preocupação básica do Movimento de Educação de Base - MEB era alfabetizar e apoiar os primeiros passos da educação de milhares de jovens e adultos, principalmente nas regiões Norte e Nordeste do Brasil. O projeto foi desmantelado pela ação do governo pós 1964.

De acordo com Sartori (2002) na década de 60, foi criado o Programa Nacional de Teleducação (Prontel) no Ministério da Educação e Cultura, sendo responsável por coordenar e apoiar a Educação a Distância no país, sendo substituída pela Secretaria de Aplicação Tecnológica (SEAT), extinta posteriormente.

Em 1962, foi fundada, em São Paulo, a Ocidental School, de origem americana, sendo atuante no campo da eletrônica. Possuía, em 1980, alunos no Brasil e em Portugal (ALVES, 1994).

Na área de educação pública, o IBAM – Instituto Brasileiro de Administração Municipal – iniciou suas atividades em EAD em 1967, utilizando a metodologia de ensino por correspondência (ALVES, 1994).

Em 1970, surge o Projeto Minerva irradiando cursos de Capacitação Ginasial e Madureza Ginasial produzidos pela Fundação Padre Landell de Moura - FEPLAM e pela Fundação Padre Anchieta. Foi um programa implementado como possível solução para os problemas do desenvolvimento econômico, social e político que o país atravessava. Tinha como cenário um período de crescimento econômico, conhecido como o milagre brasileiro, em que a ênfase na educação era preparar mão de obra para atender a este desenvolvimento e à competição internacional. Este projeto foi mantido até o início dos anos 80, apesar das severas críticas e do baixo índice de aprovação – 77% dos inscritos não conseguiu obter o diploma (RODRIGUES, 1998).

A história da Educação a Distância no Brasil registra também que, nas décadas de 60 a 80, novas entidades foram criadas com fins de desenvolvimento da educação por correspondência, sendo que algumas já estão desativadas. Um levantamento feito com apoio do Ministério da Educação, em fins dos anos 70, apontava a existência de 31 estabelecimentos de ensino utilizando-se da metodologia de EaD, distribuídos em grande parte nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro (ALVES, 1994).

Podemos destacar as seguintes unidades educacionais:

Associação Mens Sana, com cursos a partir de 1967;

Centro de Ensino Técnico de Brasília, em 1968;

Cursos Guanabara de Ensino Livre, em 1969;

Instituto Cosmos, em 1970;

Centro de Socialização, em 1972;

Instituto de Pesquisas Avançadas em Educação, em 1973;

Universidade de Brasília, em 1973;

Centro de Estudos de Pessoal do Exército Brasileiro, em 1974;

Universal Center, em 1974;

Fundação Centro de Desenvolvimento de Recursos Humanos, vinculado ao Governo do Estado do Rio de Janeiro, em 1975;

Cursos de Auxiliares de Clínica e de Cirurgia, em 1975;

Instituto de Radiodifusão da Bahia, em 1975;

Empresa Brasileira de Telecomunicações - EMBRATEL, em 1976;

Banco Itaú, em 1977;

Associação Brasileira de Tecnologia Educacional - ABT, em 1980;

Centro Educacional de Niterói, em 1980;

Banco do Brasil, em 1981;

Universidade Federal do Maranhão, em 1981;

Colégio Anglo-Americano, em 1981;

Associação Brasileira de Educação Agrícola Superior, em 1982;

Escola de Administração Fazendária, em 1985;

Projeto Rondon, em 1986.

Sartori (2002) destaca a importância do projeto LOGUS II, desenvolvido nas décadas de 70 e 80, habilitando mais de 60 mil professores em todo o Brasil especificamente em Santa Catarina. Destinava-se à habilitação de professores leigos para atuarem nas séries iniciais do ensino fundamental. Posteriormente foi substituído pelo Programa de Valorização do Magistério, sendo que o mesmo está praticamente desativado.

No início dos anos 70, o número de analfabetos no Brasil foi um obstáculo à modernização do país, principalmente nas regiões Norte e Nordeste. O governo optou pela adoção das primeiras experiências de educação por satélite, baseado no relatório Advanced System for Comunications and Education in National Development - ASCEND, idealizado pela Stanford University, que preconizava a eficácia de um protótipo de sistema total de utilização do audiovisual com a finalidade de educação primária (RODRIGUES, 1998).

Em 1974, surge o projeto SACI que atendia às quatro primeiras séries do primeiro grau. O projeto foi interrompido em 1977-1978 sob o pretexto oficial de que seria demasiado dispendioso comprar outro satélite; colocando em evidência as contradições nas diferentes instâncias do Estado brasileiro entre as estratégias em matéria de telecomunicações, educação e política científicas (RODRIGUES, 1998).

Em 1974, a Fundação de Teleducação do Ceará - FUNTELC, também conhecida como Televisão Educativa - TVE do Ceará, desenvolve ensino regular de quinta a oitava série e, em 1993, tinha 102.170 alunos matriculados em 150 municípios (ALVES, 1994).

Em 1978, a Fundação Padre Anchieta (TV Cultura) e a Fundação Roberto Marinho lançaram o Telecurso Segundo Grau, utilizando programas de TV e material impresso vendido em bancas de jornal, para preparar os alunos para o exame supletivo. Em 1995, foi lançado o Telecurso 2000, nos mesmos moldes (ALVES, 1994).

Em 1991, foi lançado o programa Um Salto para o Futuro, uma parceria do Governo Federal, das Secretarias Estaduais de Educação e da Fundação Roquette Pinto dirigido à formação de professores e veiculado por meio de emissoras de televisão educativas. Este programa vem crescendo e aprimorando o atendimento aos professores, aumentando o número de telepostos organizados pelas Secretarias de Educação dos Estados, contando com orientadores de aprendizagem nos telepostos. Esses orientadores assumem o papel de tutores do curso (SARTORI, 2002).

O MEC, por meio da Secretaria de Educação a Distância, oferece o curso Proformação, que presenta como objetivo habilitar professores em nível de ensino médio.

Mas e a Educação Superior? Em que momento da história brasileira a Educação Superior a Distância surgiu? Na década de 70, uma das primeiras experiências com Educação Superior a Distância ocorreu na Universidade de Brasília, que ofereceu cursos na área de ciências políticas. Porém, somente no final da década seguinte foram credenciadas as primeiras universidades brasileiras para desenvolver cursos superiores de graduação, na modalidade a distância:

•Em 1988, a Escola do Futuro-USP: um laboratório interdisciplinar de pesquisa da Universidade de São Paulo, que iniciou seus trabalhos e teve como meta investigar tecnologias emergentes de comunicação e suas aplicações educacionais (RODRIGUES, 1998).

•Em 1995, a Universidade Federal de Santa Catarina estruturou o Laboratório de Ensino a Distância no Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção. Os cursos são customizados e permitem atender às necessidades de diversas clientelas (RODRIGUES, 1998).

•Em 1999, a Universidade Federal do Pará – UFP.

•Em 1999, a Universidade Federal do Paraná.

•Em 2000, a Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC.

•Em 2001, a Universidade Federal do Mato Grosso – UFMT.

A Educação a Distância tem avançado de forma gradativa e muitas foram as experiências observadas. No cenário internacional adquiriu com o passar dos tempos qualidade e credibilidade para a sua expansão. No Brasil, a Educação a Distância, principalmente com relação ao ensino superior, ainda é vista com resistência e descrédito, sendo motivada pela forte concorrência com as instituições privadas de ensino. Por ser uma modalidade que irá atender à grande massa populacional, necessita passar por ajustes que deem condições de transitar de forma normal pela sociedade, de ser aceita como uma modalidade inovadora e democratizadora do ensino e da educação.

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