Conceitos básicos em Psicossomática Infantil

Conceitos básicos em Psicossomática Infantil
FISIOTERAPIA
Psicossomática
- Todos os órgãos, aparelhos e sistemas podem evidenciar alterações nas suas funções na presença de qualquer emoção ou pensamento;

- A antecipação de um evento feliz, uma situação nova que cause medo ou uma tristeza momentânea podem causar sintomas físicos transitórios;

Transtornos psicossomáticos e somatoformes:
- São transtornos que apresentam sintomas físicos sem explicação orgânica. A dimensão psicológica é prevalente;

- Quando aspectos psicológicos precipitam os sintomas físicos e a supressão ou tratamento destes distúrbios psicológicos anulam estes sintomas, fala-se em transtorno psicossomático (p.ex: Ansiedade e pânico). Por outro lado, quando uma doença física, como Diabetes ou Hepatite, causam sintomas psíquicos como ansiedade, fala-se em transtorno somatopsiquico. Essa divisão é artificial pois, na prática, doenças físicas induzem sintomas psíquicos e vice-versa, numa mútua implicação;

- No transtorno psicossomático o tratamento deve ser global, direcionado às áreas (aos sintomas) físicos e psíquicos. Entretanto, em primeira instância, a angústia física deve ser priorizada. P.Ex. Crise aguda de asma desencadeada por depressão ou stress;

- O sintoma psicossomático só aparece em um único nível (órgão ou aparelho) e a intervenção clínica se faz sobre esse aparelho.

Psicossomática Infantil
Os transtornos psicossomáticos da infância são caracterizados clinicamente por: Perturbação transitória ou permanente em alguns órgãos ou aparelhos, em cuja origem há uma desorganização psicológica evolutiva e cujas manifestações não podem ser dissociadas dos processos do desenvolvimento psicológico (GRUSPUN, 1999).

Estas manifestações têm os seguintes aspectos:
- Inicio durante a infância;

- Comprometimento da função dos órgãos fortemente relacionadas à maturação biológica;

- Um curso estável.

Os transtornos psicossomáticos na infância aparecem em cinco níveis diferentes. Na maioria dos casos, os cinco níveis estão implicados em maior ou menor grau:
- Nível do órgão afetado ou Lócus Minore Resistentiaea: Determinado por fatores genéticos, imaturidade neurológica ou aprendizagem;

- Nível dos centros autonômicos: determinados por fatores bioquímicos precoces (excesso ou depleção de dopamina, serotonina, adrenalina, etc). Na puberdade: pelos hormônios sexuais e fatores liberadores de hormônios;

- Nível da função emocional integrada: Conflitos internos associados a passividade, insegurança, irritabilidade, estresse agudo, etc;

- Nível das relações ambientais: Mudanças de casa, escola ou amizades, crise econômica afetando a família, doença grave;

- Nível das atitudes desfavoráveis dos pais: Deserção da função paterna, relações objetais desfavoráveis por ruptura emocional (teoria psicodinâmica), limitação ou identificação;

Nas crianças e adolescentes os sintomas psicossomáticos mais comuns são os dolorosos: dor de cabeça, dor no ouvido, dor de garganta, dor de estômago, dor de barriga, dor ao urinar, dor nas pernas, etc.
Exemplos de distúrbios psicossomáticos da infância:
1. Transtorno doloroso somatoforme: Afeta de 10% a 25% das crianças entre 3 – 9 anos. Apresentam-se principalmente na forma de dor abdominal e cefaléia. Normalmente têm como origem estresse familiar ou demandas escolares;

2. Enurese não-orgânica;

3. Encoprese não-orgânica.

As manifestações psicossomáticas podem se dar em qualquer órgão ou sistema e apresentar uma miríade verdadeiramente grande de formas convergentes com as de patologias puramente somáticas. As principais manifestações psicossomáticas em crianças, em relação aos diferentes sistemas, são apresentadas a seguir:

Órgão ou Sistema: Manifestações comuns:
Sistema Respiratório Espirro, tosse, choro, rinorréia, crise de apnéia, asma, hiperventilação;
Sistema Digestório Distúrbios na salivação, aftas, náuseas e vômitos, vômitos cíclicos, enjôo de viagem, dor abdominal, obstipação, colite, megacólon, encoprese
Sistema Dermatológico Prurido, urticária, eczema, hiperidrose, etc
Sistema Cardiovascular Palidez, desmaio, taquicardia, bradicardia
Sistema Urinário Poliúria, noctúria, disúria, enurese
Sistema Musculoesquelético Torcicolo, espasmo, tremores, tiques
Sistema Nervoso Tontura, cefaléia, enxaqueca

Um exemplo de abordagem psicossomática em uma patologia da infância: Asma

Baseado em Koszer, N. - Una visión psicológica del asma bronquial (KOSNER, N., 2002)

- Do ponto de vista orgânico, a asma é uma doença genética com componente fortemente hereditário, auto-imune e inflamatória, e que caracteriza-se por acentuada hiperresponsividade da musculatura lisa brônquica a estímulos diversos, endógenos ou exógenos, que acarreta broncoespasmo (constricção total da musculatura lisa bronquial), infiltrado inflamatório brônquico e outras manifestações decorrentes da inflamação;
- Fatores psicológicos estão relacionados com a etiopatogenia e com a resolução desta enfermidade;
- Fatores psicológicos, conjugados com a predisposição genética, podem ser fatores desencadeantes, agravantes ou mantenedores das crises;
- As variáveis psicológicas, sociais e de conduta podem manter e agravar as crises da enfermidade física numa reação circular indefinida, conforme afirma a teoria da psicomanutenção de Kysman, Dirks e Jones;
- Fatores desencadeantes de asma podem ser: alérgenos ambientais (poeira, ácaros, pelos de animais, perfumes e solventes,etc.), estressores ambientais (violência parental, abandono de um dos pais ou de ambos, violência urbana,etc.);
- Alguns autores afirmam que a asma começa como uma resposta alérgica mas logo se manifesta como reação condicionada (do tipo psicológico) envolvendo conflitos emocionais (entre outros: Alexander e French, Ajuriaguerra, Winnicott, etc);
- Está comprovado que as crises pioram em ambientes afetivamente instáveis e melhoram com a mudança de ambiente. Os fatores emocionais mais comuns na gênese das crises são: morte na família, fobias e toda ameaça de separação ou perda. Também encontram-se relações na literatura entre a evocação de crises de asma e a presença de mães dominadoras, dependentes de sua própria mãe, controladoras, possessivas, intrusivas e que abandonam os filhos e pais ausentes ou pouco presentes na educação dos filhos. Em relação à própria criança, é comum encontrar na revisão da literatura um perfil de personalidade característico: passividade, dificuldades de comunicação, introversão, agressividade, baixa auto-estima e sintomas de depressão.


Alan Demanboro
Bacharelado em Fisioterapia pela Universidade de Mogi das Cruzes (1999) e Mestrado em Psicologia da Saúde na Área de Concentração de Psiconeurofisiologia pela Universidade Metodista de São Paulo (2003). Atualmente é fisioterapeuta da Prefeitura de Santana de Parnaíba e Pesquisador junto ao laboratório de Neuroestimulação da Divisão de Neurologia do HCFMUSP.
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