Odontologia Medieval

Odontologia Medieval
ODONTOLOGIA

Na Idade Média, a medicina era praticada principalmente nos mosteiros cristãos e, em 1.163, quando a Igreja proibiu os monges de realizar cirurgias, os barbeiros passaram a fazer parte da odontologia. De tanto ir aos mosteiros cortar o cabelo e aparar barba dos monges, os barbeiros acabaram tendo alguma noção sobre medicina, sendo que muitos deles se tornaram assistentes de cirurgia.

E com a proibição dos monges em fazer cirurgia, os barbeiros passaram a realizar procedimentos no campo médico, como tirar pedras da bexiga, fazer sangrias e, também, extrair dentes. A odontologia realizada na Idade Média se resumia a extração dentária realizadas pelos barbeiros, homens rudes e sem qualquer tipo de instrução científica.

Os médicos de então se recusavam a extrair dentes, alegando que este procedimento poderia deixar suas mãos grossas, roubando-lhes a destreza, tão necessária às cirurgias. Dessa forma, pacientes que procuravam os médicos com dor de dente eram encaminhados aos barbeiros para que a extração fosse executada. Permanecendo à margem da medicina oficial, os barbeiros acompanhavam os circos, praticando os espetáculos das extrações dentárias.

Também realizavam seus trabalhos em domicílio, em Ruas e em barbearias. Frequentemente armavam seu arsenal em Praça Pública, caçando fregueses que por ali passavam. Usando um instrumental precário e sem uso de anestesia, as extrações dentárias configuravam-se num espetáculo que misturavam horror e diversão.

Relatos da época falam do uso de um fórceps, literalmente medieval, e que, abocanhando não apenas um, mas vários dentes, e mesmo sem o desejar executavam extrações seriadas, indo para o lixo tanto dentes imprestáveis como sadios. Sucessos nas extrações dentárias se reservavam aos dentes tomados pela periodontite avançada, procedimentos que não demandavam muita dificuldade pela rala quantidade de osso a circundá-los - representando, portanto, elementos dentários já capengas e muito bem encomendados.

No entanto, os dentes de pessoas jovens, com boa quantidade de osso a sustentá-los, dificilmente, por mais hábil que fosse o barbeiro, eram extraídos da cora à raiz, sendo comuns suas fraturas.

Quebrados, eram abandonados no alvéolo à própria sorte, à espera que sucessivas inflamações dessem bom destino a eles, expulsando-os cedo ou tarde de dentro da cavidade alveolar. Os barbeiros arrancadores de dentes sentiam-se prestigiados ao terem suas vestes incrementadas com sangue - prova incontestável, na cabeça deles, que desempenhavam com fino trato a profissão.

Opinião, contudo, que não era compartilhada por aqueles que já experimentaram dos seus serviços, detentores que ficavam de péssimas lembranças, as quais não permitiam que nunca mais pensassem em deixar seus dentes serem arrancados. Homens e mulheres da Idade Média não tinham a constância de belos sorrisos em razão de que, mesmo quando possuindo dentes íntegros, quase sempre apresentavam extensas cáries e doença periodontal.

A falta de higiene nesses tempos assumia proporções alarmantes, presente nas pessoas e em tudo aquilo que as circundavam. Normas religiosas estabeleciam critérios nem sempre favoráveis aos banhos e de caça aos piolhos nas cabeças, havendo bonificação espiritual para aqueles que se mantivessem com os insetos morando nos ensebados couros cabeludos.

Foi nesse período que se caracterizou de maneira enfática a figura do "tiradentes" e do médico, cabendo ao primeiro um papel inferior e mais ambíguo; situação que de certa forma persiste até hoje promovendo uma já conhecida dificuldade do cirurgião-dentista ser prestigiado como um especialista da área médica.

Os próprios cursos para formação de dentistas fundamentam seus currículos de modo a fornecer suficientes conhecimentos bucais e remotos de ordem geral; válida também é recíproca e, como resultado, pelo menos no Brasil, médicos e dentistas sempre trilharam caminhos separados, cada um preservando seu terreno de atuação e evitando de entrar no do outro.

Apenas mais recentemente, com a descoberta da relação entre as doenças bucais e de ordem geral o panorama vem exigindo uma mudança de postura dos dois lados. Mas ainda percebe-se certo estranhamento quando um dentista aborda seu paciente como um todo e não apenas como uma boca sem corpo. Também deve ser muito complexo entender o que existe em comum entre odontologia, filosofia, psicologia, história e literatura.

À primeira vista, nada, porém, tudo, quando o objeto de interesse for o ser humano visto de forma integral, que, jogado à própria sorte no mundo, pede respostas, e encontra apenas sugestões vindas de pessoas comprometidas com seus próprios interesses. É então chegado um momento em que fica difícil de acreditar que a vida tenha algo mais do que simplesmente buscar a estabilidade financeira, o luxo, o prazer na mesa e no sexo. Muita gente torce para que o ser humano não pense, pois assim fica mais fácil de consumir todo o lixo que lhe for oferecido.

O filósofo Kant, considerado o maior representante do Iluminismo alemão, e que viveu no século XVIII, em seu texto " O que é ilustração", sintetiza o seu otimismo como filósofo ao ver o homem se guiar na vida pela sua própria razão, sem se deixar guiar pelas crenças, tradições e opiniões alheias. E através do conhecimento, o homem adquire consciência e passa a pensar com a razão em todos os aspectos de sua vida. Assim, dotado de razão e liberdade, o ser humano passa a ser o centro de tudo, correndo atrás de ajudar o seu semelhante com todos os recursos usados pela ciência.

A ideia de aprimorar valores humanos em profissionais de saúde não é nenhuma novidade. Ainda no século XIX, William Osler, um médico canadense recomendava que seus alunos lessem clássicos da literatura e obras filosóficas. Acreditava que a relação da ciência médica com as ciências humanas promovia um casamento sadio, nascendo um profissional de saúde preocupado também com outros valores, além da técnica. Kant não foi muito longe à questão da religiosidade, preferindo discutir a vida no plano do conhecimento; mas isso não significa que, para fazer ciência, se prescinda da fé. Equilíbrio entre fé e razão pode ser um bom caminho para o homem se encontrar na vida e viver mais feliz.

Antonio Carlos Crivelaro
Cirurgião-dentista especialista em Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais. Presidente da Associação Paulista de Cirurgiões-Dentistas (APCD) Regional de Mogi Mirim. Responsável pela Unidade Odontológica Especial - Odonto Bairral - anexada ao Instituto Bairral de Psiquiatria, em Itapira (SP); dentista da Comunidade Terapêutica Rural Santa Carlota.
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