A atuação do neuropsicopedagogo frente ao combate do insucesso escolar

A atuação do neuropsicopedagogo frente ao combate do insucesso escolar
PSICOLOGIA
Resumo

A presença do fracasso escolar é considerada historicamente como um dos maiores desafios para a qualificação do sistema educacional brasileiro. Neste estudo, o objetivo principal foi analisar a contribuição das neurociências na prática do neuropsicopedagogo ao lidar com alunos com trajetória de insucesso escolar, levando em consideração que este profissional constitui-se como peça fundamental para a redução dos altos índices de repetência e evasão escolar. Para alcançar os propósitos do presente estudo, foram elencados os seguintes objetivos específicos: Identificar a influência e a contribuição das Neurociências tanto na formação como na prática do neuropsicopedagogo ao lidar com o fracasso escolar de sua clientela no exercício de sua profissão; Investigar o embasamento teórico-prático que o neuropsicopedagogo utiliza com os neuroaprendizes para que os mesmos não venham a fracassar novamente na escola. Com base nesta premissa, foi realizado o presente estudo focalizando a revisão de literatura, obedecendo criteriosamente à natureza da pesquisa qualitativa de cunho exploratório. A referida pesquisa teve como fundamentação teórica os seguintes autores: Patto (1999), Mantovanini (2001), Bossa (2002), Cordié (1996), Melchior (2004), Beauclair (2014), dentre outros. Os resultados obtidos pela pesquisa apontam que o fracasso escolar apresentam inúmeros fatores que influenciam de forma insatisfatória na aprendizagem. Este referencial teórico-metodológico nos possibilitou reafirmar a importância da relação harmoniosa e recíproca dos sujeitos envolvidos no processo ensino-aprendizagem: professor, aluno, escola, família, neuropsicopedagogo e o sistema educacional como forma de superar os obstáculos e os desafios vividos no cotidiano escolar.


1 INTRODUÇÃO


A contribuição das Neurociências na prática do neuropsicopedagogo ao lidar com os alunos com trajetória de insucesso escolar é o tema do presente estudo e os motivos que impulsionaram à realização desse trabalho deve-se às inquietações vividas na infância e que, ainda, se faz presente em nossa formação e atuação docente, como também na formação e prática psicopedagógica e, mais recentemente, na formação neuropsicopedagógica.

Cabe destacar que essa situação sempre se fez presente na trajetória escolar como aprendiz ao presenciar no Ensino Fundamental, repetidas vezes, as seguintes expressões proferidas pelos professores, como por exemplo: Bando de burros, vocês não sabem nada!; Vocês não querem nada com vida, porque vêm à escola?. Com estes relatos concretos, ficava evidente que os alunos com muita dificuldade na aprendizagem ou, então, com atraso escolar (distorção idade-série) muitas vezes eram considerados pelos professores como “problemáticos” em sala de aula.

A partir dessa realidade vivida, é que surgiu a proposta de se investigar a seguinte problemática: de que forma as Neurociências pode contribuir ou interferir na formação e no exercício da prática neuropsicopedagógica, ou seja, de que forma as Neurociências pode influenciar no desempenho efetivo do neuropsicopedagogo ao lidar com os obstáculos e desafios enfrentados pelos alunos durante o processo de aprendizagem e, em especial, os provenientes de uma trajetória marcada pelo insucesso escolar.

Nesse sentido, ao trilhar os caminhos da docência, tanto nos estágios supervisionados como nos extracurriculares, trabalhando com crianças no Ensino Fundamental, esta mesma realidade ainda era sentida profundamente, ou seja, que o fracasso escolar era um grande desafio a ser superado. Só que dessa vez, em um papel oposto, ou seja, como docente e assim deveria, então, exercer uma prática pedagógica de forma consciente e eficaz e, conforme as metas educacionais estabelecidas, teria como missão reduzir os altos dos índices elevados de evasão e repetência escolar, através de um ensino pautado na qualidade e numa prática pedagógica inclusiva.

Vale destacar que no início das experiências docentes vividas foram, a princípio, frustrantes porque algumas escolas somente ofertava as turmas consideradas “caso perdido ou problemáticas” que, por via de regra, eram resultantes de uma seletividade ou exclusão escolar, prática essa justificada como uma alternativa eficaz para homogeneização do padrão de rendimento escolar como comportamento. Ou seja, as crianças eram rotuladas e tidas como casos perdidos que geralmente eram provenientes de uma avaliação classificatória e seletiva e, dessa forma as crianças eram tidas como indisciplinadas, como também as que já fracassaram na escola eram colocadas em uma única classe com o objetivo de não “prejudicar” os demais alunos. Era, portanto, um desafio a ser desmistificado e a ser superado com o propósito de incluir esses alunos que já se encontravam esquecidos por uma medida administrativa escolar, de natureza seletiva e excludente.
E assim, a cada experiência na docência e na prática psicopedagógica reforçaram cada vez mais inquietações em tentar, de alguma forma, evitar os erros cometidos pelos nossos professores que, tanto na nossa infância como nas nossas experiências na escola, praticaram medidas discriminatórias no que diz respeito aos alunos que, segundo suas aspirações da escola , fugiam ao padrão de um aluno idealizado. Quando a essas práticas, Weisz (2001, p. 29) afirma que:

“A escola precisa refletir sobre suas práticas. Porque dependendo de como as desenvolve, pode estigmatizar as crianças, prejudicando sua autoestima e dificultando, com isso, seu envolvimento com as situações de aprendizagem. É algo que acontece em muitas escolas por meio de atitudes sutis, muitas vezes inconscientes e que, mesmo de maneira involuntária, prejudicam o sucesso escolar dos alunos.”

Apesar de todas “adversidades’’ ocorridas no processo de ensino-aprendizagem, a ocorrência do insucesso escolar geralmente é apontada ao aluno que é considerado, então, como o único e exclusivo culpado pelo seu rendimento insatisfatório esquecendo, portanto, que se porventura o aluno venha a fracassar tanto a escola como o próprio professor, família e o sistema educacional também fracassaram ao desempenhar suas atribuições educativas.

Infelizmente, essa visão reducionista atrelada aos aspectos orgânicos (cognitivo) do aluno que geralmente apresenta transtornos e dificuldades de aprendizagem, acaba reduzindo-o especificamente às suas condições internas enquanto aprendiz, na qual não se deveria cultivar essa visão simplista e discriminatória. Nestas circunstâncias, vale citar que os motivos são diversos para justificar o fracasso do próprio aluno, como por exemplo: “baixo Q.I, diferenças individuais de capacidade, desinteresse ou desmotivação; em síntese o aluno é, ainda, o responsável pelo seu fracasso” (MELCHIOR, 2004, p. 24). Para termos uma abordagem mais aprofundada sobre a temática, vale destacar que os transtornos são definidos como:

“Um transtorno neurobiológico pelo qual o cérebro humano funciona ou é estruturado de maneira diferente. Estas diferenças interferem na capacidade de pensar e recordar. Os transtornos de aprendizagem podem afetar a habilidade da pessoa para falar, escutar, ler, escrever, soletrar, raciocinar, recordar, organizar a informação ou aprender matemática.” ( GÓMEZ; TÉRAN, 2010, p. 93)

Tratar a questão do fracasso escolar é aceitar que este fenômeno é um dos grandes desafios para a qualificação da educação em nosso país. Em termos educacionais, a expressão “fracasso escolar” representa uma resposta insuficiente do aluno a uma exigência ou demanda da escola. Nesta perspectiva, percebe-se que essa triste realidade causada pelo fracasso escolar acaba desestruturando os ideais de inúmeros brasileiros, como retrata a seguinte afirmação:

“O fracasso escolar afeta o sujeito em sua totalidade. Ele sofre, ao mesmo tempo, com a falta de estima por não estar à altura de suas aspirações, ele sofre também com a depreciação. Quando não com o desprezo que lê no olhar dos outros. O fracasso atinge, portanto, o ser íntimo e o ser social da pessoa.” (CORDIÉ, 1996, p.35)

Diante desse quadro, o presente estudo buscou investigar de que forma as Neurociências pode contribuir ou interferir na formação e no exercício da prática do neuropsicopedagogo, como uma forma de adotar uma abordagem mais eficaz e inclusiva, ao lidar com alunos com trajetória de insucesso escolar?. Neste aspecto, o trabalho foi norteado pelas seguintes questões: De que forma as Neurociências influenciam na formação e na prática do neuropsicopedagogo?; Qual a importância da atuação do neuropsicopedagogo ao contribuir para a superação do fracasso escolar de sua clientela e, por fim, qual é o embasamento teórico-prático que o neuropsicopedagogo utiliza com seus neuroaprendizes para que os mesmos não venham a fracassar novamente na escola? 2 TRAJETÓRIA PERCORRIDA PELA PESQUISA

Este artigo visa esclarecer a contribuição das Neurociências na formação e na prática do neuropsicopedagogo ao lidar com alunos com trajetória de insucesso escolar. O método utilizado para a elaboração do trabalho apresentado é apenas exploratória, obedecendo à rigorosidade de uma pesquisa de abordagem qualitativa, empregando-se para tal finalidade uma revisão de literatura com temas pertinentes a problemática estudada. Nesse sentido, a escolha por referenciais teóricos distintos deve-se ao fato de que, ao discutir sobre a temática em questão, estamos tratando de um fenômeno complexo tanto pela sua constituição, causas e consequências, pois conta com uma multiplicidade de relações que permeiam essa problemática.

O presente trabalho trata-se, portanto, de uma pesquisa numa abordagem qualitativa de caráter exploratório. Para alcançar o objeto desse estudo, foi considerado como objetivo principal analisar as contribuições e as implicações das Neurociências sobre a formação e a prática do neuropsicopedagogo ao lidar com a aprendizagem dos alunos com trajetória de insucesso escolar e para alcançar o presente estudo tivemos os seguintes objetivos específicos: Identificar a influência e a contribuição das Neurociências na formação do neuropsicopedagogo ao lidar com o fracasso escolar no exercício de sua prática; Conhecer a importância da formação e atuação do neuropsicopedagogo ao intervir nos transtornos de aprendizagem de sua clientela; Investigar o embasamento teórico-prático que o neuropsicopedagogo utiliza com os neuroaprendizes para que os mesmos não venham a fracassar novamente na escola.

O desenvolvimento do presente trabalho tem como fundamentação teórica os seguintes autores: Cordié (1996), Melchior (2004), Beauclair (2014), dentre outros. Para discutir a presença do fracasso escolar a pesquisa buscou, ainda, retratar os fatores que influenciam no sucesso e no fracasso escolar, diante de tantas circunstâncias ocorridas no contexto escolar e social. Vale mencionar que a escolha por referenciais teóricos distintos em torno da problemática em questão deve-se ao fato de que, ao discutir sobre fracasso escolar, Neurociências e Neuropsicopedagogia, estamos tratando de um fenômeno complexo e polissêmico tanto pela sua constituição, suas causas e suas consequências devido à multiplicidade de relações e dimensões no contexto escolar (visão micro) e na sociedade (visão macro).


3 A IMPORTÂNCIA E A CONTRIBUIÇÃO DAS NEUROCIÊNCIAS NA FORMAÇÃO E NA PRÁTICA DO NEUROPSICOPEDAGOGO


É notório afirmar que o indivíduo aprende, por excelência, por meio de modificações funcionais do Sistema Nervoso Central (SNC), ocorrendo principalmente nas áreas da linguagem, da atenção e da memória, dentre outras áreas. Cabe mencionar que para que o processo de aprendizagem se estabeleça de forma harmoniosa, é necessário que o sujeito aprendiz possa interagir com o objeto do conhecimento e que suas conexões neurais possam realizar sinapses cada vez mais produtivas e com qualidade de captação, seleção, memorização, armazenamento, retenção, evocação e, posteriormente, a transmissão de dados e informações para construir conhecimentos como um ser capaz de produzir e refletir numa relação dialógica com o objeto apreendido. Para iniciar o diálogo, é necessário que ter em mente que o termo Neurociências significa “ conjunto de ciências fundamentais e clínicas que se ocupam da anatomia, da fisiologia e da patologia do sistema nervoso (DINIZ; DAHER; SILVA, 2008, p. 154)”. Outra denominação de Neurociências que merece destaque nos diz que o termo representa uma grande “congregação multidisciplinar e sistêmica de conhecimentos, onde os avanços da Neurologia, da Psicologia e da Biologia - referentes aos estudos do cérebro - nos elucidam sobre os aspectos fisiológicos e bioquímicos relacionados ao seu funcionamento (BEAUCLAIR, 2014, p.24)”.

Conforme a afirmação acima, podemos que inferir que o profissional que lida diretamente com Neurociências deve se apropriar dos conhecimentos sobre a estrutura, o funcionamento e das doenças adquiridas pelo sistema nervoso como forma de estudar, avaliar, diagnosticar, intervir e pesquisar sobre as particularidades do cérebro, a aprendizagem e os transtornos advindos do não funcionamento harmônico da estrutura psíquica e a sua relação com o cérebro. Cabe mencionar que segundo as pesquisas das Neurociências, o neuroaprendiz ao aprender necessita que:

“Ocorram modificações permanentes nas sinapses das redes neurais de cada memória e, para a evocação de uma memória, é necessária a reativação das redes sinápticas de cada memória armazenada. É bom lembrar que as emoções, os níveis de consciência e o estado de ânimo podem inibir estes processos. A aprendizagem e a memória necessitam de mecanismos neuronais mediados pelas sinapses nervosas. Estas sinapses podem ser afetadas por estímulos neuropsicológicos, eletrofisiológicos, farmacológicos e genéticas molecular, que determinam alterações nos circuitos cerebrais.” ( RELVAS, 2009, p. 37)

Com esta grande incumbência, as Neurociências teve que se ramificar em outras especialidades que, por sua vez, uma dessas ramificações é denominada em Neuropsicopedagogia. Para Beauclair (2014, p.23), o termo Neuropsicopedagogia é “um novo campo de especialização profissional, de pesquisa, ação e intervenção, baseados nos avanços das Neurociências e suas aplicabilidades no campo da Educação e Psicopedagogia”.

Com base em nossa pesquisa, constatamos que as Neurociências é uma área muito jovem e que ainda está em construção devido os grandes mistérios que cérebro nos reserva. Por outro lado, quando nos referimos à Neuropsicopedagogia, verificamos que a mesma constitui-se como uma área de conhecimento e pesquisa de caráter interdisciplinar e transdisciplinar, que tem como direcionamento focal para os processos de ensino-aprendizagem, levando em consideração tanto a avaliação, diagnóstico e intervenção que são partes constituintes de uma investigação do sujeito, da família, da escola e da sociedade que o neuroaprendiz está inserido. Cabe mencionar que a Neuropsicopedagogia é, ainda, uma práxis o que significa que a mesma é uma prática que tem como aporte teórico de estudo os referenciais teóricos, não se constituindo por natureza, como ciência de fato. Apesar de não constituir-se ainda como ciência, é importante declarar que a Neuropsicopedagogia é:

“Um novo campo de intervenção e especialização, onde o conhecimento ultrapassa fronteiras e cria, com isso, novas possibilidades de aprender sobre o aprender, ampliando olhares e oportunizando novas formas de interrelacionar informações, conhecimentos e saberes.” ( BEAUCLAIR, 2014, p. 28).

Para entendermos melhor sobre o termo de Neuropsicopedagogia, vale salientar que é uma área de estudo das Neurociências que objetiva a “análise dos processos cognitivos,[...] construir indicadores formais para a intervenção clínica frente aos educandos padrões com baixo desempenho e que apresentam disfunções neurais devido a lesão neurológica de origem genética, congênita ou adquirida (ROTTA apud CONSENZA, 2011, p.50)”.

Vale destacar que ao analisarmos a historicidade da educação brasileira, foi constatado que a culpa para o fracasso escolar sempre foi direcionado à aprendizagem do aluno e, assim, todos os envolvidos foram e são destituídos de qualquer culpa, como também a escola e a sociedade. Para melhor refletir essa questão na atualidade, cabe pontuar que a Neurociências veio mudar este pensamento no que refere que:

“A Neurociência tem apresentado diariamente novas descobertas que não era possível saber antes. Hoje, talvez, a melhor e a mais importante descoberta da ciência que estuda o cérebro seja a questão da plasticidade cerebral, ou seja, no passado, acreditava-se que quem não aprendia e ponto final. Seu cérebro não dava conta e nunca poderia dar conta da aprendizagem, e, dessa forma, cabia ao indivíduo desaparecer dos meios acadêmicos e sociais. Era uma exclusão fundamentada até mesmo pela ciência.” ( ALMEIDA, 2012, p. 44).

Sendo assim é possível constatar que as Neurociências veio mudar as concepções do passado e, com isso, através de pesquisas e estudos sobre o cérebro, demonstra que o cérebro possui inúmeras potencialidades, na qual o neuropsicopedagogo pode despertar o grande potencial de sua clientela, seja no campo acadêmico como social. 4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS PESQUISADOS

Neste sentido, é necessário constatar que o profissional de Neuropsicopedagogia ao se apropriar dos conhecimentos das Neurociências poderá ter um suporte teórico-prático mais fundamentado para entender as funções cognitivas, tais como: atenção, memória, tátil-cinestésica, funções motoras, funções superiores ( linguagem, planejamento, julgamento, etc.), orientação, verbais. Vale lembrar que o profissional de neuropsicopedagogia deve estar em constante busca de novos conhecimentos de sua área e de áreas afins, por conta que sua formação possui uma natureza interdisciplinar e transdisciplinar. Neste sentido, o profissional de Neuropsicopedagogia deve ser, por excelência, um eterno aprendiz como também um pesquisador crítico-reflexivo de sua própria práxis.

Sendo assim, o neuropsicopedagogo deve levar em consideração que uma das suas metas de estudo deve-se a aquisição e o aperfeiçoamento constantes de sua bagagem técnico-científico sobre novas atualizações advindas de inúmeras pesquisas sobre as anomalias neurológicas, psiquiátricas e distúrbios psicológicos existentes do neuroaprendiz, além de outros saberes teórico-práticos, como nos alerta Beauclair ( 2014, p.35) que o neuropsicopedagogo deve “possuir vontade de ampliar seus referenciais teóricos, estudando campos de conhecimentos diferentes dos que está habituado em sua trajetória profissional e ampliando sua curiosidade epistemológica”.

Atualmente, o neuropsicopedagogo é considerado como um dos profissionais mais respeitados por ter como embasamento teórico-prático, tendo como foco de estudo as Neurociências como bagagem instrumental, uma ciência que tem evoluído bastante em pleno século XXI, constituindo-se como a ciência de um futuro promissor, pois a mesma amplia o entendimento como seres humanos e desvenda mistérios de como nós somos, como nos desenvolvemos e como aprendemos. Dessa forma, cabe ao neuropsicopedagogo de posse do conhecimento de Neurociências, a incumbência de lidar diretamente com a aprendizagem e seus transtornos.

Vale destacar que de posse dos conhecimentos neurocientíficos, o neuropsicopedagogo traz à sociedade uma contribuição mais efetiva e consistente sobre as Neurociências, porque o mesmo é capaz de pesquisar, compreender, transmitir e propagar, de forma mais sistemática, os conhecimentos e os mistérios sobre a complexidade do cérebro humano. Para entender melhor as várias atuações do neuropsicopedagogo, vale pontuar que as responsabilidades deste profissional é justamente ter que:

* Compreender o papel do cérebro nas relações complexas dos processos neurocognitivos e sua inserção na aplicação de estratégias neuropsicopedagógicas em diferentes âmbitos sociais, objetivando potencializar os processos de ensino aprendizagem.

* Intervir no desenvolvimento humano do sujeito aprendente, no campo psíquico, no campo do neuropsicomotor e nos campos da linguagem e da cognição.

* Obter expertise conceitual, teórica e prática referentes à complexidade pedagógica presente nas distintas questões educacionais.

* Ampliar as capacidades de intervir na afirmação de novos procedimentos educacionais e construir criativamente alternativas neuropsicopedagógicas.

* Conhecer, analisar e compreender amplamente os paradigmas focados na Educação Especial Inclusiva, de modo transdisciplinar e sistêmico, com ênfase na aprendizagem e suas possíveis dificuldades ( BEAUCLAIR, 2014, p. 34). Diante das incumbências apontadas, constatamos a grande importância da atuação do neuropsicopedagogo em nossa sociedade, pois através deste profissional é possível reduzir os altos índices de reprovação e evasão escolar – insucesso escolar – através da aplicação da avaliação, diagnóstico e da intervenção neuropsicopedagógica, tanto de forma preventiva como terapêutica, trabalhando em instituições escolares, como também em espaços clínicos com educandos com baixo desempenho escolar ou com transtornos escolares, psicológicos e/ou psiquiátricos com base nos conhecimentos advindos das descobertas das Neurociências.

O neuropsicopedagogo deve, acima de tudo, atuar na linha de frente para a implantação da Educação Especial Inclusiva mais humanizadora, como também ressignificar as práticas educativas de forma que possa estabelecer e promover práticas pedagógicas significativas, mais transformadoras e emancipatórias, levando em consideração como o cérebro aprende, além de estimular o neuroaprendiz a utilizar suas múltiplas inteligências, como selecionar, memorizar, armazenar e evocar informações e, posteriormente, transformá-los em conhecimentos significativos em sua própria vida, na qual o sujeito é capaz de construir suas próprias aprendizagens, a partir de suas próprias experiências, sendo sujeito e objeto do conhecimento em constante interação.

Convém ressaltar que o cérebro diante de inúmeras funcionalidades, passa por várias modificações significativas ao longo da evolução humana. Este fenômeno retrata perfeitamente a neuroplasticidade do nosso cérebro que, nas palavras de Relvas (2007, p. 45), indica uma condição na qual significa “ habilidade para modificar sua organização estrutural própria e funcionamento. É a propriedade do sistema nervoso que permite o desenvolvimento de alterações estruturais em resposta à experiência e como adaptação a condições mutantes e a estímulos repetidos”.

Segundo os estudos de Neurociências, este fenômeno representa que o neuroaprendiz tem grandes e diversas possibilidades de aprender e ressignificar novos aprendizados com base em suas experiências vividas tanto na escola como na vida social. Ou melhor dizendo, acaba realizando assim, cada vez mais novas sinapses e formando redes neuronais mais interligadas e consistentes. Ocasionando assim, por sua vez, uma maior velocidade das redes de interligações das sinapses gerando portanto, por via de regra, um grande potencial de processamento de informações, sentimentos, de emoções, de aprendizado capaz de reorganizar a funcionalidade das conexões e a estrutura do cérebro a cada nova experiência vivida.

E com base neste fenômeno que ocorre com cada sujeito em desenvolvimento, é que o neuropsicopedagogo deve intervir de forma positiva na vida do neuroaprendiz, tendo como missão primordial de que é capaz de potencializar e ressignificar cada vez mais a neuroplasticidade do sujeito aprendente, utilizando-se de métodos e estratégias neuropsicopedagógicas. Com a contribuição significativa das Neurociências e da Neuropsicopedagogia, é possível constatar que o neuropsicopedagogo de posse desses conhecimentos, poderá amenizar os malefícios advindos da não aprendizagem e do insucesso escolar. Vale salientar que os mesmos comprometem de forma negativa a vida de milhares de alunos que estão sofrendo nos bancos escolares por não aprenderem no mesmo ritmo em que a escola, a família e a sociedade exigem. Para demostrar o dilema que os educandos vivem no espaço escolar, vale pontuar que:

“Na atualidade, a escola vem cada vez mais se afastando da ciência e reproduzindo dogmas extraídos das ciências humanas por desconhecer a ciência do cérebro. E na aplicação desses dogmas, continua circulando uma prática pedagógica vulnerável ao potencial humano, descredibilizando a possibilidade educativo-metodológico da escola e desestimulando a permanência do aprendiz na escola.” (FLOR; CARVALHO, 2011, p. 21) Com base nessa reflexão, esse profissional terá que agir com base em uma ação pautada em questionamentos, dúvidas e, acima de tudo, na reflexão centrada no processo de aprendizagem do aluno e tentando adaptar o ambiente escolar e familiar do neuroaprendiz partindo das seguintes indagações: o fracasso é da escola, do aluno (neuroaprendiz), do professor(ensinante), da família ou sistema educacional?. A escola promove em suas relações a pedagogia do oprimido ou da pedagogia da autonomia, ou seja, a escola cultiva em sala de aula a metodologia do fracasso ou do sucesso?.

Para responder a essas indagações, cabe lembrar que a escola é uma instituição provida de regras, normas, valores e função social, e que nesta relação dialética, o neuropsicopedagogo deverá se conscientizar de sua própria identidade profissional e de sua práxis, para que possa assim delimitar até onde vai a sua atuação e a de outro profissional, realizando quando for necessário o devido encaminhamento a outro especialista.

Sendo assim, cabe a seguinte reflexão: de que forma o insucesso escolar deve ser visto pelos professores, a escola, pela família e, em especial, o neuropsicopedagogo. Cabe mencionar que este impasse deve ser visto como um obstáculo a ser superado, pois, se o aluno fracassar nos estudos estará implicando que todos, também, fracassaram na atribuição de educá-lo. Nesse sentido, todos devem agir de forma consciente, lembrando-se que é responsabilidade de todos darem suporte, carinho, estímulos e motivação para que o aluno possa manifestar seu desejo de aprender ao longo de sua trajetória escolar. A esse respeito, é importante esclarecer que:

“Toda criança pode aprender a ler e a escrever, mas não em qualquer situação. Mas está claro, também que não é em qualquer situação para todas as crianças. As condições para que ocorra aprendizagem vão variar de acordo com seu período de formação, pois todo processo de aprendizagem deve estar articulado com a história de cada indivíduo.” (LIMA, 2002, p. 15).

Para que a aprendizagem seja consolidada é necessário que neuropsicopedagogo possa identificar as dificuldades e, acima de tudo, demonstrar que acredita em seu potencial e, acima de tudo, tentar minimizar as barreiras e promover a facilitação da aprendizagem do aluno através de seu próprio desejo e sua autonomia para continuar aprendendo. Portanto, diante dessa afirmação, é a partir do pressuposto que o neuropsicopedagogo possa cultivar uma postura investigativa durante todo o processo de avaliação e intervenção neuropsicopedagógica.


5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Além de uma atuação investigativa, o neuropsicopedagogo deve cultivar, primordialmente, uma prática crítico-reflexiva. Para que esse profissional possa usufruir dessa abordagem adequadamente é imprescindível que o mesmo procure desenvolver sua capacidade de atenção e percepção através de uma observação sistemática sobre os fenômenos que o rodeiam, ou melhor explicando, o neuropsicopedagogo deve encontrar uma maneira em que possa enxergar e analisar a realidade vivida pelo aluno, lembrando-se de que a construção do conhecimento não é um acontecimento que se manifesta de forma isolada, mas sim como produto resultante de inúmeros fatores.

Como pode-se perceber, o papel do neuropsicopedagogo demanda uma atuação de extrema importância não somente dentro da escola como também no consultório, na medida em que ajuda a minimizar o sofrimento de alunos que já fracassaram na escola, através de estratégias e técnicas aprendidas ao longo de sua formação, possibilitando assim atuar neste espaço de forma reeducativa, entendendo como cérebro funciona e como aprende. Ao buscar desvendar as possíveis perturbações na aprendizagem do neuroaprendiz, o neuropsicopedagogo poderá eliminar ou amenizar os obstáculos do sintoma da não-aprendizagem com base nos conhecimentos das Neurociências. Vale lembrar que superar as dificuldades e os desafios impostos pelo insucesso escolar, o caminho percorrido pelo neuropsicopedagogo não é nada fácil. Isso se justifica por conta das expectativas colocadas em seu desempenho profissional que, por sua vez, reflete no rendimento escolar do aluno que se encontra em processo de tratamento terapêutico. Devemos lembrar que mesmo diante de uma situação de emergência, devido às pressões exercidas por todos, não se pode esquecer que o neuropsicopedagogo não traz consigo, em sua prática profissional, “ uma porção mágica” ou até mesmo “um possível milagre”.

Para mudar a realidade do cotidiano escolar, cabe ao professor e a escola adotar uma postura crítico-reflexiva ao lidar com os alunos e, em especial, os educandos com uma trajetória marcada pelo insucesso escolar. Quanto a esse aspecto, concordamos com Weisz (2001, p. 60) ao mencionar que “não é o processo de aprendizagem que deve se adaptar ao de ensino, mas o processo de ensino é que tem de se adaptar ao de aprendizagem”.

Adotando essas medidas, a mudança do estado de fracasso para sucesso escolar poderá ser uma realidade alcançável através da conscientização de todos os envolvidos através de uma parceria - que deve ser estabelecida pela escola, família e o neuropsicopedagogo - indispensável ao enfrentamento do fracasso escolar. Vale ressaltar que a escola da atualidade não deve ser apenas ser transmissora de saberes e sim, produtora de conhecimentos.

Nesse sentido, não devendo esquecer de que a escola “promova a neuroaprendência, que é a capacidade de sentir, pensar e agir ( RELVAS, 2014, p.116)”. É importante lembrar que o sucesso escolar só uma realidade atingível quando acreditamos que o neuroaprendiz pode vencer suas dificuldades e que os obstáculos que se encontram em seu aprendizado é, enfim, apenas mais um desafio a ser superado no encontro de novos saberes, vivências e conquistas.


REFERÊNCIAS


ALMEIDA, G. P. Plasticidade cerebral e aprendizagem. In: RELVAS, M. P.(org.). Que cérebro é esse que chegou à escola?: as bases neurocientíficas da aprendizagem. Rio de Janeiro: WAK, 2012.

BEAUCLAIR, J. Neuropsicopedagogia: inserções no presente, utopias e desejos futuros. Rio de Janeiro: Essence All, 2014.

CONSENZA, R. M.; GUERRA, L. B. Neurociências e Educação: como o cérebro aprende. Porto Alegre: Artmed, 2011.

CORDIÉ, A. Os atrasados não existem: psicanálise de crianças com fracasso escolar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.

DINIZ, D.F.; DAHER, J; SILVA, W. G. da. Neurociências: termos técnicos. Goiânia: AB, 2008.

FLOR, D.; CARVALHO, T. A . P.de. Neurociências para educador: coletânea de subsídios para “alfabetização neurocientífica”. São Paulo: Baraúna, 2011. GÓMEZ, A. M. S.;TÉRAN, N. E. Dificuldades de aprendizagem: detecção e estratégias de ajuda. São Paulo: Grupo Cultural, 2010.

LIMA, E. S. Desenvolvimento e aprendizagem na Escola: aspectos culturais, neurológicos e psicológicos. São Paulo: Sobradinho, 2002.

MELCHIOR, M. C. O Sucesso Escolar Através da Avaliação e da Recuperação. Porto Alegre: Premier, 2004.

RELVAS, M. P. Fundamentos biológicos da Educação: despertando inteligências e afetividade no processo de aprendizagem. Rio de Janeiro: WAK, 2007.

_______. Neurociências e Educação: potencialidades dos gêneros humanos na sala de aula. Rio de Janeiro: WAK, 2009.

______. Sob o comando do cérebro: entenda como a Neurociência está no seu dia a dia. Rio de Janeiro: WAK, 2014.

WEISZ, T.; SANCHEZ, A.. O Diálogo Entre o Ensino e a Aprendizagem. São Paulo: Ática, 2001.

Lucilia da Silva Santos
Professional e Self Coaching, Analista Comportamental e Analista em 360º pelo IBC, Graduada em Pedagogia e em Psicopedagogia. Especialista: em Neuropsicologia; Psicopedagogia Clínica, Institucional e Hospitalar. Pós-graduação: MBA em Gestão de Recursos Humanos e em Neuropsicopedagogia Clínica. Professora na Educação Básica e Ensino Superior. Atua como coach, professora, palestrante e escritora..
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